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"A paz interna é a base mais sólida para a paz mundial". (Lama Gangchen)

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Ditadura
Histórias de tempos que não voltam mais. Graças a Deus!

Foto: Roberto Inácio 
olhos_fechadosRecebo um cheque por um free-lance realizado e como o banco é ali perto vou até lá para pegar o dinheiro. Entro assim meio distraído, vou para o caixa mais vazio (na época os banqueiros não 'otimizavam' tanto seus lucros - ou nos roubavam menos - e não havia essa tal de fila única), encosto no balcão e começo a colocar meu nome no cheque. Sai a pessoa que estava na minha frente, vou para a boca do caixa, ainda prestando atenção no cheque, quando ouço uma voz assim meio sinistra: 'Não me reconheça, não diga meu nome, se não eu te mato." 

Tomo um p..a susto e fico sem saber o que fazer, porque a voz vem do caixa, tenho a impressão de que a conheço mas não sei o que fazer, menos ainda o que pensar. Será que o caixa do banco está me assaltando? Não é possível, penso com meus botões, isso é coisa de diretor de banco e eles não usam esse tipo de violência. Deslizo o cheque pelo buraco do guichê (acho que na época não havia esse buraco, mas não tenho certeza) e devagarzinho e com muito cuidado levanto ligeiramente os olhos. E quem vejo? Quase tenho que morder a língua para não dizer seu nome. Era um amigo do tempo da Faculdade, que foi vice-presidente do Centro Acadêmico, quando eu era presidente. Pessoa calma, tranquila, boa gente, daquelas que a gente diz 'é incapaz de matar uma mosca'. Pego o dinheiro que ele me passa, louco para ir embora logo e então poder raciocinar um pouco, e ouço-o dizer entredentes: 'depois te explico'.

Não quis saber de explicação nenhuma, nem quando trabalhamos juntos num jornal poucos anos depois. Acho que ele estava trabalhando como caixa do banco para levantar alguma informação para um futuro assalto de algum grupo guerrilheiro ao qual estivesse ligado.

Não morri de amores pelo militares da ditadura, e vocês já perceberam que até hoje não 'adoro' banqueiros. Mas nem na época, nem hoje, consigo entender como uma pessoa como aquela chegou àquele ponto de 'ódio' em defesa de uma idéia de liberdade, de  democracia, de defesa dos menos favorecidos... Tudo isso eu também defendia (hoje tenho dúvidas de que só exista a possibilidade de democracia como forma de governo. Não acredito em verdades eternas e acho que a democracia favorece bastante a continuação da exploração dos mais pobres pelos mais ricos, sejam eles pessoas ou países. Claro que não tenho pronta uma fórmula melhor de governo, mas podemos pensar juntos, não podemos? E chegar lá, quem sabe. Agora com certeza ditadura é sempre o pior tipo de governo possível, independente dos 'resultados' obtidos e sejam os ditadores déspostas esclarecidos ou não...).

E essa pequena história para mim é emblemática sobre o perigo das ditaduras. Um pouquinho de gente quer mandar num montão, e então começam a distribuir porrada em quem não aceita isso. Grande parte dos que estão sendo mandados faz de conta que nada está acontecendo; e uma pequena parte faz oposição aos poucos mandões. E faz oposição como? Na porrada, também, claro. 

                                                Duas historinhas mais leves

Trabalhando num jornal em Santos, antes da ditadura engrossar de vez, sou designado para cobrir uma passeata no centro da cidade. Chego lá, fico observando e aí começo a ser chamado por amigos para entrar na passeata. E aí meio 'disfarçadamente' vou desempenhando um duplo papel, meio jornalista, meio participante da passeata.  Chegamos em frente a um bar, numa praça, e começam os discursos. Aí um amigo e um dos líderes da oposição à ditadura em Santos, me convida a ir tomar uma água no bar. Vamos e primeiro damos um pulinho ao banheiro. E aí fico procurando o instrumento de fazer xixi e nada de encontrar. E aí meu amigo diz: Tá conseguindo, Roberto? Conseguindo o quê, Sérgio? Fazer xixi? Não, ainda não encontrei a minha ferramenta. Eu também não, responde ele. E sabe o que é isso? Medo!!!

Depois de bastante esforço (eu ainda não sabia que respirar relaxa e afasta um pouco o medo), conseguimos. E depois comentamos bastante o assunto. A coisa na época ainda estava leve, a polícia 'apenas' dava uns encontrões nos manifestantes e às vezes algumas cutucadas com os cassetetes, mas nós, nessa passeata,  nem tínhamos sido ameaçados. Mas o medo está lá, dentro de nós. Mesmo em mim que tinha desculpa de que estava apenas fazendo uma matéria para o jornal!!!

E finalmente uma história bem engraçada, agora já trabalhando num jornal em São Paulo. Dessa vez estava apenas indo para o jornal e encontro o Ney Latorraca, amigo dos tempos da Faculdade em Santos. Conversamos um pouco e lá vem um monte de PMs a cavalo, brandindo seus sabres (nesse tempo a coisa já estava terrível em termos de violência policial), preparando-se para perseguir estudantes em manifestação mais lá na frente de onde estávamos. E aí o Ney diz: Vamos ficar aqui na porta desse prédio e faz de conta que você não viu nada. E ele joga um monte de bolinhas de gude na rua. Não deu outra, logo que estão chegando os 'cavaleiros' um dos cavalos escorrega e os que vinham atrás começam a cair uns por cima dos outros, o efeito dominó mais engraçado que eu vi até hoje. Claro que por fora a gente fazia cara de sério e triste (nós e uma monte de gente que estava na calçada), mas por dentro estávamos morrendo de rir.

Foi uma maldadezinha, claro (contra os cavalos, lógico), mas foi pequena e muita engraçada. Mas não gostaria de ver os jovens de hoje, ou de amanhã, passando por essas situações, mesmo as engraçadas.

E como muita gente não lembra mais o que foi a ditadura no Brasil, e muita gente diz que sequer percebeu que ela existiu (aquele montão de gente do faz de conta de sempre), então repasso essas historinhas para vocês.

Fechando a matéria, digo que hoje não acredito em soluções políticas e/ou sociais. Quer dizer, não acredito em grandes soluções e grandes revoluções. Elas ajudam um pouco mas a evolução real passa sempre pela evolução pessoal, na mudança pessoal. E sem espiritualidade jamais chegaremos a essa evolução real, não importa que governos existam! 


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